
QUEM
SOU
Sou filha de extremos.
Meu pai teve uma infância conturbada — dessas que roubam cedo demais a leveza de um menino. Trabalhou nas ruas como engraxate, carregando nas costas uma caixa de madeira maior do que seus próprios sonhos.
Ajoelhado diante de sapatos de homens bem-sucedidos, aprendeu, ainda criança, a dureza do mundo. Suportou abusos, silêncios impostos, humilhações engolidas a seco.
Em casa, a violência também morava. As surras eram parte da rotina, como se fossem o único método de educação eficaz. Cresceu em um ambiente machista, onde a força valia mais que o afeto e onde o silêncio era a língua oficial da dor.
Talvez por isso tenha buscado farda e disciplina ainda jovem. Ingressou no Exército como quem tenta organizar o caos por dentro. Mais tarde, já homem, construiu outra história: tornou-se advogado, empresário, boêmio, alguém que transformou sobrevivência em conquista e alegria. Mas as marcas da infância — invisíveis aos olhos — jamais deixaram de existir. E dessas marcas nasceu o caos.
Minha mãe, por outro lado, parecia feita de outra matéria. Era delicada, espiritualizada, sensível. “Fraquinha”, diziam, como se suavidade fosse sinônimo de fragilidade. Cresceu em uma família onde prosperidade, violência e silêncio caminhavam lado a lado — como se o brilho externo escondesse fissuras profundas.
Ao lado de meu pai, na vida adulta, tornou-se uma das empresárias mais bem-sucedidas da cidade. Havia nela uma força silenciosa, dessas que não gritam, mas sustentam. Quem a conhecia falava de sua generosidade, da maneira como acolhia, da presença firme e serena. Após sua morte, em 1987, permaneceu viva na memória de todos como uma presença luminosa, generosa, profundamente humana. Era dessas pessoas que deixam marcas de amor por onde passam. Todos a amavam — e ainda amam, na lembrança.
Eu nasci do encontro entre esses dois mundos.
Entre o menino que precisou endurecer para sobreviver e a menina que aprendeu a permanecer suave mesmo quando tudo era áspero.
Eu nasci da cicatriz e do cuidado.
Nasci da união de um pai partido e uma mãe iluminada.
Sou a soma dos dois.
Carrego a disciplina e a sensibilidade.
O silêncio e a fé.
E esta é a minha história.
E, talvez, também a continuação daquilo que em cada um deles buscava cura.
Aline.
Cheguei ao mundo em solo missioneiro e carrego comigo a força dos ventos e das chuvas. Nascida em uma pequena cidade chamada Santo Ângelo, no interior do Rio Grande do Sul, pulsam em mim os tambores guaranis. Minha alma se divide entre o ontem, o hoje e o amanhã. Minhas origens são simples. Meus valores e crenças, inabaláveis. Nas sombras, aprendi mais sobre respeito, bondade e honra do que mil vidas poderiam ensinar.
Quando criança, tinha apenas três sonhos: "Ser professora, proteger a vida marinha e salvar crianças e elefantes na África." Minha maior inspiração era um senhor chamado Jacques Cousteau, oficial da marinha francesa, documentarista, cineasta, escritor, oceanógrafo, inventor e mundialmente conhecido como "O homem que ensinou os humanos a respirar como peixes."
Naquela época, sem poder transformar esses sonhos em realidade devido à pouca idade, meu coração se dividia entre as passarelas, o vôlei e o trabalho voluntário. Aos 12 anos, vestia-me de palhaço para alegrar crianças na praça da cidade. Aos 14, jogava em campeonatos regionais e estaduais de vôlei. Entre 15 e 18 anos, participava de concursos de beleza e desfilava para marcas conhecidas. Quando não estava nas passarelas, jogando ou com amigos, auxiliava crianças e idosos em situação de abandono e, com a ajuda de padarias e granjas locais, fornecia alimentos ao asilo da cidade.
Na vida adulta, conheci a Sea Shepherd Conservation Society — a maior organização de intervenção ambiental do planeta, e minha vida mudou para sempre.
Em 2005, integrei o quadro de voluntários da organização e logo me tornei diretora de vídeos e tradutora oficial do Instituto Sea Shepherd Brasil – Guardiões do Mar, posição em que permaneci por dez anos.
Em 2012, como parte do Instituto Sea Shepherd Brasil, trabalhei na 11ª Edição do Padi Dive Festival — maior evento de mergulho da América Latina, onde tive o privilégio de entrevistar grandes nomes do conservacionismo mundial. Realizado no World Trade Center em São Paulo, o evento contou com a presença de Jean-Michel Cousteau, filho de Jacques Cousteau, minha grande fonte de inspiração na infância. Foi um momento ímpar, extremamente especial e marcante em minha vida.
Em 2015, o destino me aproximou de outra figura importante no conservacionismo mundial: Peter James Bethune, neozelandês, fundador da Earthrace Conservation, autor, palestrante, estrela do reality show "The Operatives" e detentor do recorde mundial pela viagem mais rápida ao redor do mundo em um powerboat.
Em 2017, fui convidada a integrar a equipe de operações em terra da Earthrace Conservation, tornando-me a única brasileira da equipe. No mesmo ano, ao lado do Capitão Pete Bethune, participei do Campus Party — um dos maiores eventos de tecnologia do Brasil, realizado na cidade de São Paulo.
Ainda em 2017, a convite do capitão Pete Bethune, atuei como colaboradora no desenvolvimento da missão que veio ao Brasil para proteger os botos cor-de-rosa da Amazônia e expor a pesca e o comércio ilegal de piracatinga. A ação, conhecida como Amazon Campaign, contou com o apoio do biólogo brasileiro, Richard Rasmussen, e do californiano Erik E. Crown, documentarista investigativo e diretor de documentários como Harambe, Phosfate e Livicated. No entanto, enquanto investigávamos atividades ilegais para expor a indústria madeireira no Brasil e a cortina de fumaça que envolve a verdade sobre a matança indiscriminada de botos na Amazônia, o capitão Pete Bethune foi vítima de uma tentativa de homicídio e a missão foi suspensa em solo brasileiro.
Além dessa, participei de inúmeras outras ações em prol do meio ambiente ao longo de minha trajetória, entre elas posso citar:
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Ações civis públicas contra grandes corporações por derramamento de petróleo;
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Movimentos de limpeza de praias e oceanos;
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Trabalhos de educação e conscientização ambiental em comunidades ribeirinhas;
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Treinamentos de resgate de animais marinhos;
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Missões de combate à pesca predatória por arrastão;
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Ações contra o "finning" (corte de barbatanas de tubarão);
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Missões de exposição da indústria pesqueira e do entretenimento envolvendo focas, baleias e golfinhos;
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Missões de exposição da indústria alimentícia, cosmética e de moda em questões de abuso animal;
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Ações de combate à pesca ilegal com dinamite e exposição da indústria madeireira.
Em 2019, após quinze anos de dedicação ao meio ambiente e de trabalhar em algumas escolas na Grande Florianópolis, onde tive sob minha responsabilidade mais de três mil alunos, mudei completamente o rumo de minha vida para atuar como desenvolvedora de projetos ao lado de grandes nomes da música.
Em 2020, fui responsável pela produção audiovisual de projetos que envolveram nomes de peso do cenário musical brasileiro. Em um desses projetos, juntamente com outros artistas, estava Thedy Corrêa, autor, palestrante e vocalista da banda Nenhum de Nós.
O trabalho com Thedy Corrêa marcou significativamente minha história, pois foi o último trabalho desenvolvido por mim antes do colapso que resultou na criação da MAF. Foi durante a transmissão desse trabalho ao vivo que meu corpo desligou, me deixando em uma cama por dois anos.
Sem que Thedy soubesse sobre minha história de vida, ou eu imaginasse o que estava prestes a acontecer, naquele dia minha vida mudava para sempre, em consequência das violências sofridas.
Coincidentemente, uma das mais importantes composições do rock brasileiro pertence à banda Nenhum de Nós e foi inspirada em uma história real de violência. Lançada em 1987, a música Camila, Camila retrata a manipulação, a vergonha e o silêncio presentes na violência doméstica. "Com alguma explicação", aquele trabalho com Thedy foi o momento exato em minha existência onde houve uma ruptura. E foi justamente essa ruptura que abriu espaço para um novo caminho.
Aos 43 anos, colapsei em decorrência de uma série de abusos e uma vida de silêncios. Somente agora, mais de cinco anos após o colapso, estou renascendo para contar a minha história e dar voz a outras vítimas da violência.
Hoje, assumo o compromisso de estar à frente de um projeto próprio, e espero que minha história de vida e superação inspire mulheres e homens na quebra do silêncio.
Em minhas mãos, uma nova missão: lutar pelo fim da violência contra as mulheres.
Estive com todo tipo de pessoas, em todo tipo de ambiente, e vi todo tipo de comportamento. Absolutamente nada, "além de alma", enche meus olhos.
Nada me compra. Nada me corrompe.
Meu nome é Aline, sou mãe e fundadora da MINHA ALMA FALA. Sou a morte de tudo o que fui e a força de tudo o que ainda serei. O elo partido. Luz e trevas. Sou a sombra das flechas do povo de minha terra. Alma de mil vidas. Sou mãe, pai, tios e avós. Fogo e ar. O céu e as estrelas. Pertenço a outro lugar. Sou de um outro tempo. Lembrança desfigurada. Corte profundo. Sou a memória viva de meus pais. Princesa dos sonhos de minha mãe. Sou amor e empatia. O grito mais alto. Sou caos e guerra. Sou o que ninguém consegue roubar. Dentro das partes que me faltam, sou inteira.
Agradeço por ter vindo ao mundo no corpo em que vim, ter nascido na terra em que nasci e ter vivido tudo o que vivi. Agradeço por todo o horror e toda beleza que meus olhos viram. Quando partir, partirei maior e melhor do que quando cheguei, graças às experiências que tive e pessoas que encontrei. Boas e más. Tudo faz parte de quem sou agora.
Agora, pela primeira vez, falo sobre o que me aconteceu e que deu origem à MAF.
Porto Alegre, 2 de junho de 2020 — 20h.
Foi a noite mais fria registrada no Sul do Brasil daquele ano.
A 460 km de casa, com as roupas em sacos de lixo, entrei em um Uber e segui em direção à casa de um familiar que ficava a 124 km de distância de onde estava.
Ao chegar lá, respeitando as orientações de segurança contra a Covid-19, passei a primeira semana inteira isolada em um quarto. Sem saber que estava vivenciando o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), acordei todas as noites daquela semana, gritando.
Meses depois, cortei todas as formas de comunicação com as pessoas que conhecia e o endereço @minha_alma_fala foi aberto para manter contato com uma única amiga.
Enquanto todos viam uma pandemia varrer o mundo, eu tentava sobreviver ao impacto destrutivo dos traumas em meu próprio corpo.
Foram dois anos de luta até começar a entender o que aconteceu comigo após aquela noite.
E só foi possível ressignificar o que aconteceu, quando a música colocou mais de 100 mil pessoas no meu caminho.
Não desliga! Fica aí!
Morando na Europa e ciente sobre o último abuso que sofri, mesmo distante, uma amiga permaneceu ao meu lado por dois anos e, por meio de ligações de vídeo realizadas diariamente no endereço @minha_alma_fala, me manteve viva.
Seu nome é Andrea.
“Não desliga! Fica aí!” Ela me dizia todos os dias, mesmo quando ia dormir.
Com o telefone posicionado ao lado de sua cama e em chamada de vídeo aberta, Andrea acordava várias vezes durante a noite para verificar se eu continuava na tela. E antes de retornar a dormir, repetia: “Não desliga! Fica aí!”
Onde quer que estivesse, o telefone permanecia ligado.
Ela me carregava para todos os lugares, como se carregasse alguém que se recusava a perder.
Do banheiro à cozinha. De faxinas exaustivas a longas caminhadas restauradoras pelos parques de Dublin. Dos planos de visitar a casa de Sineàd O'Connor ao Castelo Manderley da cantora Enya. Do mercado a encontros com amigos. Da retomada ao trabalho à sua viagem à Itália, onde recarregamos nossos olhos com o visual desconcertante de “Cinque Terre”.
Estávamos sempre juntas, dia e noite.
Atravessamos países e, através de seus olhos, amizade, boa vontade, disposição, empatia e uma tela de celular, pude ver a vida que seguia sem mim.
Durante o complexo processo de recuperação da alma, conheci o lado mais perverso da escuridão, de onde a maioria das pessoas não volta para contar o que viu. Sou grata à Andrea por ter permanecido ao meu lado. Seu rosto esteve sempre lá, totalmente à minha disposição, mesmo quando eu não conseguia falar, me mover ou apenas chorava.
Hoje, cinco anos mais tarde, vejo com total clareza tudo o que aconteceu. E agora, finalmente, Andrea entenderá o tamanho do que fez por mim.
O primeiro impacto.
Após sofrer violência psicológica, moral e patrimonial por aproximadamente um ano e meio, desde aquela noite em junho de 2020, meu corpo estava respondendo ao choque e aos traumas causados pela magnitude dos abusos.
As consequências foram irreversíveis.
O choque foi tão forte que meu corpo entrou em colapso. O estrago psicológico causado pelo "gaslighting" foi tão extenso que trouxe à tona lembranças escondidas nas profundezas da memória e deixou o cérebro, que havia passado a vida inteira com o modo 'sobrevivência' ativado, completamente desprotegido.
Como resultado, aos poucos, meu corpo deixava de atender aos meus comandos e, em minha cabeça, vozes e flashes de memórias distantes se misturavam, esmagando os pensamentos. Continuar respirando era um pesadelo, e tudo me fazia chorar.
Crises de ansiedade e pânico eram diárias, mesmo que eu não soubesse nomeá-las na época. Eram tão fortes que me impossibilitavam de realizar atividades simples.
Meu mundo começou a diminuir até que sair de casa já não era possível.
Os gritos do abusador, questionando minha bondade, capacidade, honestidade e ingenuidade, ecoavam sem parar em minha mente enquanto estraçalhavam minha sanidade.
A lembrança dos berros e falas misóginas rasgavam a minha alma enquanto eu me perguntava: por quê? Em looping, aquela voz em minha cabeça repetia acusações falsas, ofensivas, obscenas e xingamentos de baixo calão que me reduziam a pó.
Ao fundo e misturando-se à voz do agressor, estava a voz de um familiar, dizendo: "nossas escolhas, Aline!" Juntas, as duas vozes ressoavam tão profundamente a ponto de me fazer desmaiar várias vezes ao dia.
Enquanto o caos se estabelecia no corpo, minha parte racional gritava lembrando-me de que todo problema tem uma causa, e que, para resolvê-lo, só há um jeito. Eu precisava descobrir o que estava causando tudo aquilo. Era inadmissível e vergonhoso estar naquela situação. Além disso, eu tinha filhos, sustentava uma casa sozinha, e não podia ficar inutilizada em uma cama. Eu precisava continuar trabalhando. Afinal, isso, era ser mulher. Isso, era ser mãe. Isso, era ser responsável.
A cobrança externa e familiar, somadas à minha autocobrança, faziam com que eu tentasse a todo custo me manter forte e ignorar o que estava acontecendo. A pressão para que eu seguisse em frente com minha vida, mesmo que isso fosse impossível, era aterradora. Mas apesar de todo o meu esforço, essa era uma luta perdida.
O corpo estava exausto, e ele dizia: chega!
Conforme os dias passavam e, enquanto tentava entender e nomear o que estava acontecendo, todas as vozes do passado começaram a se misturar lentamente em minha cabeça. Tudo o que eu ouvia eram ecos dos gritos que estavam presos em minhas próprias lembranças.
Assim como na infância, voltei a ter pânico de dormir, pois ao dormir sonhava com os abusos que sofri e revivia-os um a um. Quando estava acordada, era atormentada pelas mesmas lembranças e vozes que ecoavam sem parar.
Não tinha como escapar.
Flashes dos abusos vinham como clarões e me jogavam ao chão em movimentos bruscos e involuntários do corpo.
Choques! Verdadeiras descargas elétricas no cérebro.
Sentia como se todas as ramificações de meu cérebro estivessem sendo desconectadas. Arrancadas!
Choques e clarões, os quais eu não controlava, se manifestavam a todo instante e, em alguns momentos, ficar em pé não era possível. Meu corpo tremia como se estivesse convulsionando.
A visão ficava turva, o mundo girava de maneira assustadora e eu precisava desesperadamente me agarrar ao chão.
O cérebro funcionava de forma acelerada e os pensamentos cruzavam minha mente numa velocidade absurda, exatamente como quando rebobinamos um filme. Por causa disso, em alguns momentos, não conseguia falar. A velocidade da fala não acompanhava a velocidade com que os pensamentos cruzavam o cérebro.
A bagunça mental era tanta que ficava impossível organizar os pensamentos para a comunicação fluir naturalmente. Palavras vinham ao contrário e se misturavam entre o inglês e o português. Comecei a gaguejar e em certos momentos não conseguia concluir frases simples.
Era inútil lutar contra a força do que estava acontecendo.
Mal sabia que estava experimentando, uma a uma, as consequências devastadoras dos traumas no meu corpo.
Aos poucos, os famosos "brancos" foram chegando.
Esquecia o que estava pensando e o que estava fazendo, da mesma forma como esquecia as palavras, pois o significado delas já não era algo fácil de encontrar.
Esquecia de ir ao banheiro e, quando lembrava, já era tarde. Por conta disso, passei a urinar na roupa, diariamente.
Então, um dia, ao ver minha filha passar em frente a porta do meu quarto, quis chamá-la e não lembrava o seu nome.
Em seguida, a música passou a me ferir de maneiras inimagináveis. Era como se me cortasse em mil pedaços. Qualquer nota era suficiente para ativar gatilhos fortes demais para aguentar. Até mesmo músicas vindas de casas vizinhas me causavam pânico e ansiedade. O toque do celular, músicas em sites, propagandas e filmes, qualquer som desencadeava o terror. Todos os aparelhos precisaram ser desligados, pois todos os sons me remetiam ao último abusador, um músico.
Os dias se tornaram noites e as noites dias. Parei de perceber o tempo e, cada vez que abria os olhos, folhas do calendário haviam sido descartadas. A relação tempo-espaço era nula. Quando fechava os olhos era março e quando abria me diziam que já estávamos em junho. Eu não entendia o que estava acontecendo e nada mais fazia sentido.
O tempo estava me engolindo, enquanto a memória recente estava sendo apagada.
Enquanto vivia em uma espécie de coma, os meses passavam em questão de segundos.
Após mais de um ano naquela situação, sem entender o que estava acontecendo, pensei no sofrimento que estava causando aos meus filhos e pedi a Deus para me levar. Implorei de joelhos para morrer. E mesmo sabendo que aquela dor esmagadora não me pertencia, a força que fazia com que ela devorasse minhas entranhas era imensa.
Era como se houvesse duas pessoas dentro de mim.
De um lado, estavam os pensamentos que não me pertenciam, exigindo que eu colocasse um ponto final em tudo. No outro, estava eu, consciente e alerta, certa de que precisava observar o que acontecia para encontrar uma saída.
Nitidamente, eu via que uma força maior estava presente, pois aquelas vontades não eram minhas.
A dor era tão real e devastadora que passei a praticar automutilação, onde arrancava os cabelos e arranhava os braços e as pernas em uma tentativa deseperada de desviar o foco da dor visceral que me consumia. Só assim, causando dor ao corpo, conseguia, mesmo que por alguns minutos, acalmar a mente.
O ar não estava entrando. Eu estava sufocando.
Nesse ponto, fotografei a morte. O que apareceu no rolo da câmera não era eu, mas algo como uma entidade. Algo difícil de descrever. Difícil de explicar. Era o meu corpo. Porém, morto. Ainda hoje não consigo olhar para aquela foto, mas a guardo como um registro do que não posso ousar esquecer.
Naquele dia, ao ver a morte estampada em meu celular, pedi socorro. Foi a única vez que pedi.
Enviei um áudio para um familiar chorando e pedi para fazer uma ligação de vídeo, pois precisava falar com alguém que pudesse me ajudar imediatamente e pensava que essa pessoa pudesse ser ele. Eu estava com pomada anestésica aplicada no pescoço e pensava em rasgá-lo com um pedaço de vidro.
O que escutei em resposta ao meu áudio, foi: "Diga o que você quer por aqui mesmo, no WhatsApp. Por aqui já tá bom!". Em seguida: "Não acredito que você será a única da família a não dar certo."
A pouca importância dada ao meu pedido desesperado e a frase fria que ouvi em seguida, gerou uma onda de gatilhos, e a certeza da morte me consumiu. Foi tão brutal que desmaiei.
Quando acordei, sabia o que precisava fazer.
Só havia duas opções:
-
tentar, a qualquer preço, salvar a minha vida
ou
-
tentar seguir em frente para atender expectativas que não eram minhas
Sabendo que a segunda opção não era possível, para me proteger dos gatilhos que poderiam desencadear o fim, o isolamento foi a 100%.
Com isso, a ajuda financeira que chegava, cessou.
Sem qualquer tipo de amparo, reserva financeira, impossibilitada de trabalhar ou mesmo realizar tarefas mínimas, vi nossa casa ser invadida pela fome. Fome real. Não uma fome superficial, mas uma fome longa, silenciosa, carregada de vergonha, culpa e dor.
Uma fome que devora os ossos, de dentro para fora.
O que posso dizer sobre a fome é que ela mata a alma antes do corpo. Ela aniquila qualquer resquício de dignidade que ainda exista em você. É tão devastadora que, depois de um tempo, você não sente mais nada.
Você deixa, inclusive, de se sentir humano.
No segundo ano, perdi 20 kg em decorrência da falta de alimento.
Manchas, feridas e coceira na pele, infecções, perda dentária e óssea, cabelos caindo, incontinência urinária e fecal.
Eu estava morrendo.
Nos momentos que antecederam minha "morte", ao atingir o nível mais profundo da escuridão, fui invadida por uma sequência de sonhos. Neles estavam duas tias e minha mãe, todas espíritas sensitivas já falecidas. Elas me recebiam em uma loja e, dentro da loja, a luz era muito forte, uma mistura de vermelho e pink. As três vestiam roupas brancas simples, calça, camiseta e uma espécie de sapatilha de tecido. Tudo na cor branca. Era sempre o mesmo sonho e se repetiu por dias.
Nos sonhos, elas me conduziam a um pequeno banheiro onde me despiam e banhavam sob a luz forte e pink daquele lugar. Não falavam nada, apenas limpavam meu corpo com água. Durante o banho, com meu corpo curvado e magro, eu chorava compulsivamente.
Depois, ao acordar, permanecia deitada em minha cama, sempre na mesma posição: de lado com as costas para fora. E apesar de já estar acordada, sentia as três, ali, comigo.
Com as mãos em cima de meu corpo, elas faziam uma espécie de Reik. Era nítida a energia de cura que elas emanavam. Não chegavam a me tocar, não! Mas o calor de suas mãos penetrava em minha pele liberando aquela mesma luz pink do sonho por todo o quarto. Aquilo me acalmava. Eu me sentia amada e conseguia identificar que estavam agindo por mim. Porém, com o corpo exausto e muito debilitado, eu continuava sem qualquer reação. Estava fraca demais para reagir.
Eu não sentia medo, sabia que estava morrendo e estava pronta, apenas fechava os olhos para receber o que me davam e chorava. Além disso, estava em paz com a mulher, mãe e amiga que havia sido durante minha vida. Só queria poder descansar, mesmo que para isso precisasse morrer.
Estava vazia. Desconjutada.
Depois de alguns dias tendo o mesmo sonho, meu espírito exaurido se entregou ao destino. Foi quando decidi soltar e deixar ir todo e qualquer pensamento que me prendesse ao corpo.
Eu não sabia na época, mas agora que tudo passou, ao olhar para trás, vejo que aqueles banhos foram uma espécie de limpeza espiritual para que eu pudesse receber o que viria a seguir.
Com aqueles banhos, fui preparada para ver o que a mente se recusava a enxergar.
Aquela não foi uma preparação qualquer. Foi específica para que eu suportasse revisitar o início da minha história. Pois, somente lá, encontraria a verdadeira causa de tudo.
Assim que os sonhos pararam, memórias guardadas há muito tempo ressurgiram com força total e pude assistir ao filme da minha vida passar diante dos meus olhos. Só então, percebi o tamanho do estrago ocasionado por cada abuso que sofri.
Compreendi, pela primeira vez, que era uma vítima da violência.
Foi como se tirassem uma venda dos meus olhos.
Um clarão preencheu o quarto e iluminou a cama em que eu estava e pela primeira vez desde a morte da minha mãe na infância, eu me vi.
Foi como se a pele, usada por mim durante toda a vida para disfarçar a dor e o horror, estivesse sendo arrancada.
Alguém me disse que, quando a noite fica mais escura, é porque já está perto de amanhecer. Pois bem, aquele era o momento mais escuro. Foi ao atingir aquele ponto de total escuridão, que todo o peso, medo, culpa e vergonha que carreguei durante a vida, desapareceram.
Eu acordei!
Visitei lembranças de cunho sexual na infância, o dia da morte de minha mãe, mais de 30 anos de violência psicológica, moral e física, descaso, negligência, terrorismo. Fui invadida por uma sequência de memórias e revivi, uma a uma, todas aquelas experiências, enquanto me perguntava: "Por que nunca enxerguei tudo isso com clareza? Como pude normalizar coisas assim? Como pude minimizar tamanha dor? Como isso aconteceu comigo?"
Em minha cabeça, muitas perguntas.
Lentamente os pontos começaram a se conectar e tudo ficou claro em minha mente.
Entendimento.
Lucidez.
Uma infância marcada pelo trauma e pelo medo. Uma juventude inteira de violência, silêncio e dor. Um casamento abusivo, seguido de um divórcio violento com anos de perseguição e ameaças. Infinitas escolhas motivadas pelo abandono, incompreensão, medo, rebeldia e desespero. Tudo isso me conduziu ao abuso final. Todas as minhas "escolhas" haviam me levado ao ponto onde estava. Sim, foram as minhas escolhas! No entanto, agora eu sabia exatamente quais haviam sido e o que me levou a tomá-las. E, isso, muda tudo.
Naquele momento de total clareza, levantei-me da cama e percebi que, no espelho, não havia mais nada. A versão de mim, como todos conheciam, havia desaparecido.
Chorei copiosamente e senti um alívio enorme, como se a espiritualidade estivesse abraçada comigo, dizendo: "É isso. Consegue ver agora? A dor de uma vida termina aqui. Você enxergou."
Pensei em todas as pessoas que estiveram no mesmo lugar em que estive, pessoas que conheceram a escuridão e nela perderam a vida. Pensei na amiga que cometeu suicídio enquanto eu estava na cama, lutando para sobreviver, e em minha ex-aluna, uma criança, que fez o mesmo naquele mesmo período.
Meu corpo foi tomado por um sentimento de amor e rebeldia tão grande que formava um círculo de luz e de ódio ao redor de mim. Compreendi que quem comete suicídio não deseja partir, mas quer pôr fim à dor excruciante daquele lugar de trevas.
Percebi também que, para cada morte, há um causador.
Sim!
As pessoas costumam culpar a doença, a depressão, a rebeldia ou qualquer outro fator pelos suicídios, mas se esquecem de responsabilizar quem, de fato, é o culpado.
"Coitada, tinha depressão e se matou!" - Consegue perceber?
Essa é uma falha imensa.
Há um abismo entre o "Coitada, tinha depressão e se matou" e a verdade.
As pessoas em nossa sociedade estão tão acostumadas a culpar aqueles que perderam a vida que não buscam entender a verdade, pois ela é terrível. Escolhem não ver porque os verdadeiros causadores dessas mortes, muitas vezes, são elas próprias.
Naquele instante de clareza absoluta, havia também revolta, e fiz uma promessa: "Irei contar tudo o que vi e senti."
Pensei nas tantas mães que perderam seus filhos e quis abraçá-las e confortá-las, pois estava claro para mim que eles não tiveram chance.
Ninguém sobrevive a escuridão em que estive. Ninguém!
Senti meu coração expandir de forma descomunal e fui invadida por uma empatia sem fim, enquanto pensava: "Não sairei dessa vida sem contar o que aconteceu comigo." Não sabia como faria ou por onde iria começar, mas estava determinada.
Em minha cabeça, uma afirmação ecoava em alto e bom tom, como se alguém falasse repetidamente: "É a justiça divina. Nada impedirá que isso aconteça."
Junto com a voz que repetia essas palavras eu sentia a força e presença de minha mãe, pela primeira vez desde sua morte. Como um vendaval arrancando tudo o que estava diante dos meus olhos, ela agia sem piedade. Estava me arrancando da escuridão enquanto emanava um sentimento de fúria como nunca senti.
Eu não estava sozinha.
A luz.
Poucas semanas depois, sem qualquer intenção de ter algo na internet, adicionei alguns trechos de músicas na página que utilizava para falar com minha amiga na esperança de aliviar os gatilhos mentais que a música continuava desencadeando. Dessa forma, todos os dias, ao abrir o Instagram para conversar com ela, poderia ouvir poucos segundos de músicas que gostava e lentamente superar a ansiedade que me consumia.
Era uma página vazia, sem seguidores ou seguidos. Ali, somente eu e Andrea.
Orei e pedi por um caminho. Qualquer coisa que me tirasse do lugar onde eu estava. Eu não queria saber como aconteceria, mas exigia que o universo encontrasse uma maneira de mudar minha situação. Eu estava determinada e queria um milagre.
Pouco tempo depois, da noite para o dia, uma das músicas postadas ultrapassou os 10 mil compartilhamentos e o endereço tornou-se uma página com quatro mil seguidores em apenas um dia.
As pessoas chegavam aos montes, mas no endereço @minha_alma_fala não havia nada. Absolutamente, nada!
Estava sem bio, foto de perfil ou conteúdo. Não havia nada além das poucas músicas que postei para me curar. Então, eu pensava: O que essas pessoas estão fazendo seguindo um endereço vazio?
Era o meu milagre. Não tinha como não ser.
Logo no primeiro dia, sem saber o que fazer com tudo o que estava acontecendo, recebi um pedido de uma seguidora. Foi como um direcionamento. Estranhamente, ela perguntou se eu poderia fazer o trecho de uma música, da mesma forma como havia feito o trecho que postei para me curar. A música que ela estava pedindo falava de mesas fartas e, em minha geladeira, não havia nada. Estávamos há dias somente com água da torneira em casa.
Perdida, sem forças ou direção, com fome, desesperada, chorando e sem saber o que estava fazendo, mas acreditando que um poder maior estava agindo naquele momento, editei o trecho que a seguidora havia pedido e o enviei com uma mensagem de gratidão.
Ao recebê-lo, ela disse estar emocionada, pois aquela era a música preferida de seu melhor amigo e ela a usaria para homenageá-lo. Contou, ainda, que ele havia falecido em um acidente de carro poucos dias atrás. Senti meu coração apertar, pois, enquanto eu chorava por estar naquela situação, ela chorava pela perda de alguém que jamais poderia ter de volta, me fazendo perceber que eu não estava sozinha naquele lugar de dor.
Diversos pedidos como aquele chegaram nos dias seguintes e continuaram chegando por dois anos seguidos.
Mães que perderam os filhos. Filhos que perderam os pais. Pessoas que estavam atravessando momentos de dificuldade, depressão, dores de amor, inúmeras pessoas que pensavam em suicídio e mulheres que foram vítimas de violências.
Fui invadida por um mar de histórias. Todas, de dor.
Cada pessoa que chegava, contava um pouquinho sobre o que estava passando.
Incrédula, deitada em minha cama, eu tentava confortar a todos que vinham a mim com o mínimo que eu podia oferecer.
Sem perceber, assim nascia a MINHA ALMA FALA.
A energia era palpável. Algo que jamais esquecerei.
Em seguida, ainda nos primeiros dias, uma cantora muito famosa e querida por todos começou a seguir a página. Irei chamá-la de "S". Não era uma cantora qualquer, era alguém que marcou profundamente a minha infância. Ao ver o seu nome nas notificações, fui atingida por uma segunda grande explosão de luz. Isso serviu para confirmar que minha mãe estava presente, pois eu cantava e dançava ao som das músicas de "S" em apresentações da escola.
O impacto da presença de "S" na página foi como um segundo direcionamento: pensei nas mulheres que poderiam estar passando pelo que passei e que precisavam ser ouvidas. Não tive dúvidas de que a página estava nascendo para ser algo maior e imediatamente soube que deveria abrir espaço para que outras pessoas pudessem contar suas histórias.
Com os números subindo sem parar, ficou óbvio que não era sobre mim, mas sobre todas as mulheres.
Não era sobre a minha história e o que havia me acontecido, mas sobre o que eu faria com o que me aconteceu e quantas pessoas ajudaria com aquilo. Nunca tive tanta certeza de algo.
Na primeira semana, a @minha_alma_fala atingiu a marca de 10 mil seguidores. Entre eles, inúmeros famosos, incluindo grandes celebridades nacionais como cantoras, modelos, apresentadoras de TV, jornalistas, atrizes e grandes bandas.
"Com alguma explicação", todos decidiam seguir a MAF. Pessoas com 2, 4, 10 milhões de seguidores simplesmente apertavam o botão "seguir" de minha página vazia.
Hoje, tenho orgulho em afirmar que a MAF existe para honrar a música, inspirar mulheres vítimas da violência na quebra do silêncio e convocar os homens a se unirem a essa luta. Um projeto ainda em seus passos iniciais, mas com grandes possibilidades.
O que vivi, apesar de ter sido devastador, me transformou de maneiras que não imaginava. Cada pedaço de dor, cada lágrima derramada, foi o terreno fértil onde minha força e resiliência começaram a crescer.
Quando olho para trás, vejo que o que parecia destruição foi, na verdade, o nascimento de algo novo.
Morri várias vezes em vida. Cada morte apagou uma parte importante de mim, mas nada foi suficientemente grande para apagar minha essência. E mesmo que hoje eu me sinta amputada, sou mais inteira agora.
Do colapso até este momento, passaram-se quase seis anos de luta e total isolamento. E foi através da MINHA ALMA FALA, editando pequenos trechos de músicas para desconhecidos, que recuperei um pouco do que havia perdido. Editando, as conexões cerebrais foram reestabelecidas. Reaprendi a escrever, voltei a falar sem misturar idiomas e encontrei forças para construir este projeto.
Agora, com cinco e-books finalizados, um livro em andamento e um projeto lindíssimo em minhas mãos, tenho a certeza de estar indo rumo ao meu propósito.
Em 2026, a MINHA ALMA FALA seguirá impactando outras vidas e, eu, continuarei me recuperando enquanto escrevo essa nova história.
Sou grata. Agradeço. Confio. Entrego.
A seguir, você poderá ler um resumo breve acerca de alguns dos primeiros acontecimentos. Um fragmento de tudo o que vivi. Lembranças que só foram interpretadas por mim como abusos, dois anos após colapsar e 36 anos após sofrer os primeiros abusos. Quando, pela primeira vez, me vi como uma vítima real da violência.
Foram estes primeiros abusos que me condicionaram a aceitar e a normalizar tudo o que veio depois.
Neste depoimento, deixo de fora as violências sofridas na vida adulta. Por se tratar de um conteúdo altamente agressivo, estarão em meu livro.
Espero que este pequeno relato venha a ajudar pessoas que estejam vivendo ou que passaram por situações similares.
O começo.
Durante a infância, presenciei inúmeras agressões, sem imaginar que cada uma delas me traria ao ponto em que estou hoje.
"Por que você deixou o portão aberto? Por sua causa, tive que queimar o cachorro. Agora, fica quieta, se a sua mãe souber, vai te colocar de castigo!"
"Por que você estava na casa da Aline? Ela é rica!" (Pah! Um tapa que cortou o olho da outra criança).
"Por que você não deu a cadeira para a Aline sentar? (Pah, uma surra na criança que estava sentada na cadeira).
Certo dia, quando a campainha tocou, minha mãe gritou dos fundos da casa pedindo para que eu não abrisse a porta.
Estou indo! — Disse ela.
Desobedecendo, corri para abrir.
Mais tarde, naquele mesmo dia e como consequência de abrir a porta, vi meu pai agredir e estrangular minha mãe.
"Por que você abriu a porta?
Por sua causa, a sua mãe foi estrangulada!"
Na mesma época, joguei uma faca em meu irmão, cortei os cabelos de uma amiga e libertei todos os pássaros da vizinhança.
Abuso 1
Sexual
Na infância, sofri abuso sexual por parte de um familiar do sexo feminino.
Os abusos eram frequentes e, apesar de ser muito pequena para compreender, sentia que aquilo estava errado.
Filmes pornográficos e situações constrangedoras onde era forçada a reproduzir algumas das cenas vistas nos filmes, eram constantes.
Sem qualquer defesa, era, diariamente, atingida por sentimentos e informações confusas. Com alertas para que não contasse a ninguém, fiz o que qualquer criança sem instrução sexual faria, mantive o silêncio.
Apesar de nem sempre estar sozinha quando acontecia, ninguém, além de quem estava no local, ficava sabendo. Fora daquele ambiente, era como se não tivesse acontecido.
Eu tinha sete anos e mesmo que as lembranças provem que tudo começou muito antes, prefiro acreditar que começaram somente aos sete.
Aos poucos, traços da violência começaram a se manifestar, mas ninguém entendia o que estava acontecendo comigo. Desmaios, medo de ambientes fechados e do escuro foram os primeiros sintomas de que algo não estava bem.
Minha mãe pensava ser um medo normal de criança e me confortava com presentes e amor. Mas, sem demora, aquele medo normal abriu espaço para algo mais complexo. Era comum acordar no meio da noite gritando e, com isso, ela passou a deixar a luz do corredor acesa todas as noites na tentativa de me acalmar.
Pouco tempo depois, comecei a urinar na roupa dentro da sala de aula, casas de amigas e viagens da escola.
Sem saber lidar com o que estava acontecendo, a agressividade veio naturalmente.
Aos oito anos ensinava outras meninas a beijar e, incentivada por uma amiga da escola, aos nove fumava os primeiros cigarros. Sem maldade, consciência ou entendimento sobre o que fazia, estava reproduzindo o que era ensinada.
Minha mãe pensou que eu pudesse estar com algum "encosto", e buscava ajuda em centros espíritas e benzedeiras. Até um padre esteve em nossa casa!
Ela nunca imaginou o que estava, de fato, acontecendo.
Como eu era uma menina muito mimada, a crescente agressividade deve ter sido, em parte, correlacionada ao fato dela estar doente e não conseguir me dar a mesma atenção de antes.
As lembranças desses abusos permaneceram como uma grande sombra que me acompanhou durante toda a vida. Nunca confrontei a pessoa que cometeu os abusos. Sempre fomos muito próximas, e esse era um assunto proibido.
Sem saber como resolver a situação, essas lembranças foram guardadas nas profundezas da memória e, com o tempo, tornaram-se muito difíceis de acessar. O assunto foi velado e enterrado por trinta e seis anos. Se ninguém falava, ninguém sabia. Era mais fácil assim.
Nunca quebrei o silêncio, até agora.
A pessoa, que na época dos abusos era menor de idade, sem saber que eu construía o Palco MAF para Mulheres Vítimas de Abusos, bateu à minha porta no ano de 2023.
Quando questionada sobre o passado, disse não saber sobre o que eu falava. No entanto, ao perceber que eu não estava brincando, rapidamente acrescentou, dizendo: “Fui abusada sexualmente na infância.”
Em seguida, atacou.
Com ofensas direcionadas à memória de minha falecida mãe, tentou, sem sucesso, me colocar em uma posição de inferioridade e submissão. O mesmo lugar em que me manteve durante toda a vida.
“Sua mãe nem era isso tudo. Era uma macumbeirinha!”
Nada mais foi dito.
Em 2024, ela retornou e, ainda sem querer falar sobre o assunto, foi expulsa do local.
Sigo meu caminho permanentemente afastada.
Abuso 2
Psicológico e Moral
A morte de minha mãe.
Logo após o enterro, de joelhos e agarrando-me pelos braços, estava a melhor amiga de minha mãe. Pessoa que, em tese, cuidaria de mim após a sua morte.
Ela me chacoalhava enquanto berrava:
"Criança inútil. A Maria era uma molóide, criou a filha para ser uma princesa e agora tá lá, morta! Tu é uma criança mimada. Não serve para nada! A mãe morre e ela não chora. Não gostava da mãe! É uma criança ruim! Se gostasse da própria mãe, estaria chorando, mas não chora! Tu é uma praga! Não deixava a mãe em paz um minuto enquanto ela estava viva. Sempre querendo atenção e chamando: mãe, mãe, mãe! Chegava da escola imunda e corria para se atirar na cama em que a mãe estava deitada e ainda comia as bolachas que eu trazia para ela, que estava doente. Ruim! Ruim! Ruim! Tu é uma criança ruim! Tenho ódio de ti! Tenho vontade de te esganar! Tu matou a tua mãe!"
Em completo estado de choque por ver minha mãe ser deixada em um buraco no cemitério e sem qualquer compreensão sobre o significado da morte e suas implicações, aqueles gritos abriram uma porta para o terror absoluto. Pois, além dessa ser a pessoa mais próxima a nós, era também a mãe da pessoa que cometera os primeiros abusos.
Enquanto meu cérebro tentava bloquear a dor e impacto de tudo o que estava acontecendo, eu pensava: O que farão comigo agora que matei a minha mãe?
Bem, em primeiro lugar, eu não matei a minha mãe. Mas o choque daquela acusação foi tão violento que acreditei ter sido a culpada.
Eu tinha dez anos.
Nos anos seguintes, algumas pessoas se acharam no direito de repetir aquelas palavras no intuito de me ferir, e ainda diziam: "Todo mundo pensa assim, fulana tinha razão, você matou a sua mãe!"
Escutei isso tantas vezes que acreditei.
Só foi possível chorar a morte de minha mãe quando, aos quinze anos, o pai de uma amiga faleceu e pensei que aconteceria o mesmo que aconteceu comigo, com ela. Então, finalmente chorei e acabei sendo expulsa do velório por chorar demais. Ninguém entendeu o meu desespero.
Foram mais de dez anos de agressões vindas de todos os lados. As consequências de tudo o que me foi dito, somadas aos abusos anteriores e posteriores, foram devastadoras.
Cada palavra que escutei no dia da morte de minha mãe impactou diretamente no meu comportamento, mudando totalmente o rumo da minha vida. Desconstruiu minha visão de mundo, quebrou minha redoma protetora e varreu minha autoestima.
Depois daquilo, aprendi a me adaptar a tudo e a me diminuir para caber em lugares onde não me queriam grande. Era rebelde e furiosa, para defender as dores de outras pessoas e causas nas quais acreditava. Porém, permissiva em níveis incompreensíveis, quando o assunto era me defender.
Na adolescência, houve algumas tentativas de contar o que me acontecia a algumas pessoas.
Na primeira vez, quando tentei contar a uma tia distante, não sabia por onde começar. Desesperada e com medo, citei alguns momentos que, fora do contexto, não devem ter feito muito sentido.
Na segunda vez, falei sobre algumas coisas que aconteciam na tentativa de explicar algumas atitudes, ao meu melhor amigo, pessoa que eu mais amava no mundo. Na época, ele estudava para se tornar psiquiatra e nunca mais falou comigo depois daquele dia. Pensei que ele me achasse "louca" e, por isso, também não o procurei. Nunca mais o vi.
Quando percebi que jamais seria ouvida e que as pessoas não permaneceriam ao meu lado se soubessem a verdade, silenciei. A verdade era feia demais. Aprendi a manter o sorriso no rosto e a nunca falar, esperar ou pedir nada de ninguém. As pessoas não queriam saber o que me acontecia. Elas queriam a parte boa de mim e foi exatamente o que aprendi a entregar.
Quase trinta anos depois, em 2015, recebi uma carta da pessoa que cometeu esse e vários outros abusos ao longo de minha vida. Na carta, ela afirmava, entre outras coisas, que não me bateu no dia da morte de minha mãe, mas que suas palavras podem ter sido como "uma grande surra".
Em 2017, em um encontro familiar, fui surpreendida com um pedido de desculpas e questionada sobre ter me tornado tão educada, gentil e amável com todos. Questionada sobre ser mais amorosa com ela do que suas próprias filhas jamais foram. Questionada sobre nunca ter revidado — ela disse não compreender como eu havia me tornado uma pessoa boa depois de tudo o que me aconteceu e queria entender como eu conseguia perdoar as pessoas. Compartilhou um pouco sobre a sua própria história de vida e falou sobre o quanto sua infância foi difícil. Uma infância mergulhada em tortura, violência, dor e bullying.
Hoje, compreendendo melhor as nuances desse ciclo devastador chamado "Ciclo da Violência" e sabendo um pouco mais sobre a sua história, entendo de onde veio tamanha raiva e desprezo.
Não carrego ódio. Não carrego nada. Sou grata por essa pessoa ter reconhecido o erro, pois reconhecendo-o ela me libertou. Sou grata pelo bom e pelo ruim. Sim, o lado bom existe. Sempre existirá. No entanto, nada mudará o que aconteceu comigo em decorrência de tantos abusos e do tamanho desrespeito com o qual fui tratada, durante 15 anos, após a morte de minha mãe.
Cada palavra, cada grito, cada atitude teve um impacto.
Sigo meu caminho permanentemente afastada.
Abuso 3
Psicológico, Moral, Sexual, Físico e Obstétrico
Aos dezesseis anos, comecei um relacionamento.
Ele, onze anos mais velho, lindo e querido por todos, parecia ser a escolha perfeita. "Um partidão" como diziam.
Não era um estranho. Não!
Além de ser irmão de uma das minhas melhores amigas, era, também, conhecido de toda a minha família e meu professor.
Naquela época, a situação toda não parecia errada. A diferença de idade ou o fato dele ser meu professor nunca foi motivo de questionamento. Era uma situação normal para as pessoas da pequena cidade.
Após um ano de namoro, apaixonada, sem qualquer apoio ou noção sobre métodos contraceptivos, engravidei. Imaginei que, se sobrevivesse à fúria de meu pai e de meu irmão, provavelmente teria que casar.
Dentro de tudo o que eu achava ser possível me acontecer como consequência por tamanha irresponsabilidade, isso era o máximo. Isso ou ser mandada embora de casa. Afinal, era assim que as coisas aconteciam.
Algumas semanas depois de descobrir a gravidez, o namorado se ajoelhou na minha frente dizendo que resolveria a situação.
"Confia em mim. Sei o que estou fazendo. Não farei nada para te machucar."
Então, para minha surpresa, naquele mesmo dia ele apareceu com uma bacia cheia de folhas em suas mãos, e disse: "come tudo!" — Respondi dizendo que não iria comer. Inconformado com a minha recusa, colocou as folhas em minha boca de maneira forçada. Logo em seguida, ao me ver tremendo e chorando, pediu desculpas, disse que me amava e que não faria nada para me machucar.
Ao sair do quarto, contei para a irmã dele sobre o que havia acontecido e ela enlouqueceu: "Ele é um louco! Como você não vê? Não é a primeira vez que ele faz isso com uma namorada e não será a última! São folhas abortivas, Aline!"
Eu, sem imaginar que folhas abortivas existiam, imediatamente, pensei: "Claro que não! Ele me ama!"
Algum tempo depois, ele organizou uma viagem.
Sem muita consciência do que estava acontecendo, eu achava que receberia um pedido de casamento naquele final de semana, ao mesmo tempo, estava apreensiva devido às constantes insinuações de que ele resolveria a situação.
Tudo parecia incerto e eu não conseguia ver além.
Menti para meu pai naquele final de semana, pois ele jamais me deixaria viajar com um namorado. Disse apenas que iria para a fazenda de uma amiga.
Ao chegarmos no destino, fomos direto para um prédio no centro da cidade. Perguntei quem estávamos visitando e ele desconversou.
Quando chegamos no andar, uma senhora nos recebeu. Sorri e a abracei pensando ser alguém da família, mas, ao atravessar a porta, percebi que não se tratava de um apartamento.
Em questão de segundos, todos os meus instintos estavam à flor da pele.
Apesar de confusa, imaginei que ele quisesse manter segredo sobre a gravidez e por isso havia me levado para uma consulta tão longe. Afinal, morávamos em uma cidade pequena onde todos nos conheciam e todo mundo sabia sobre a vida de todo mundo. Ele poderia estar querendo me proteger ou até mesmo me poupar da vergonha de ter engravidado antes do casamento e, mesmo que falasse em resolver a situação, nunca deixou claro sobre o que estava querendo dizer com aquilo.
Eu, em minha bolha de ignorância e ingenuidade, não imaginava o que estava por vir e permanecia presa à ideia de que a qualquer momento receberia um pedido de casamento.
Estava em negação!
Em minha cabeça, ele me amava.
E, por isso, nunca faria nada que pudesse me ferir.
De repente, a mesma senhora que nos recebeu veio em nossa direção, pegou em minha mão e começou a explicar a situação.
Olhei para o namorado como se implorasse para que ele dissesse que aquilo não era verdade. Comecei a gaguejar e as palavras não saíam.
Lembro-me de olhar para a porta e imaginar um meio de sair sem ser impedida, mas o medo foi maior que tudo e não consegui fazer nada.
A voz daquela senhora entrava em meus ouvidos, mas eu não entendia uma palavra do que ela dizia.
Meu corpo congelou!
Levantei, implorando para não ser levada a outra sala e tudo o que eu conseguia dizer era: "Por favor! Por favor! Por favor!" — Enquanto repetia o nome dele sem parar.
Ao chegar na sala ao lado, fui rapidamente cercada por dois homens que seguraram meus braços e me amarraram a uma mesa.
Bem assim, de sopetão!
Instantaneamente, senti um gelo percorrer o corpo e vomitei no chão.
Isso tem nome: medo.
Pedi desculpas e disse que limparia tudo.
Fiquei histérica.
Eu precisava limpar.
"Não se preocupem, eu limpo!"Eu dizia, repetidamente. — Reflexo dos anos de abusos onde era constantemente punida.
Implorei para que não fizessem nada de ruim comigo. Estava confusa e a realidade não parecia real.
"Eu não quero isso! Por favor, parem!" Repetia, inutilmente, enquanto tentava me desvencilhar das mãos daqueles homens. Mas assim que tive os braços amarrados, a prioridade era me silenciar, pois eu estava descontrolada.
Ainda escuto minha voz afogada em choro implorando. Era uma voz distorcida, grave, baixa. Uma voz que não parecia ser minha.
Num ambiente como aquele, uma menina em desespero é motivo de alerta, pois tudo o que lugares clandestinos querem é não chamar a atenção, e eu era uma bomba-relógio.
Foi tudo muito rápido.
Fui amarrada, alguém segurou minha cabeça e colocaram algo em meu rosto. Em seguida, senti uma dor forte no braço e a sala toda escureceu.
Lembro-me do quão desesperador foi não ter ninguém para me socorrer.
Eu não sabia que estava sendo anestesiada, pois nunca havia sido anestesiada antes. Sabia apenas que estavam fazendo comigo o mesmo que via em filmes.
Pensei que estavam me matando.
Um rápido apagão.
Silêncio.
Meus olhos abriram outra vez.
Não entendia o que estava acontecendo. Pensava ter piscado. Tinha certeza de ter apenas piscado. Como poderiam ter feito algo comigo em tão pouco tempo?
Ao abrir os olhos, continuei de onde havia parado, mas agora a língua estava enrolada como se estivesse sob efeito de álcool. Foi como um piscar de olhos, mas, além de balbuciar palavras incompreensíveis, agora sentia uma forte cólica que me atravessava.
Percebi que a parede ao lado da mesa estava coberta de sangue, diferente de quando cheguei, e fiquei aterrorizada. Foi quando uma mulher se aproximou, colocou a mão em minha testa e disse: acabou.
Naquele instante, meu coração parou de bater.
Inconsolada e confusa, gritei o mais alto que pude: NÃO!
Todos os meus sonhos morreram naquela mesa.
No chão, dois baldes com sangue.
Lembro de cada detalhe do que os meus olhos viram. As imagens ficaram minuciosamente gravadas em minha memória com som, cheiro e cores. Posso descrever com exatidão, tudo o que vi, ouvi e senti.
Por algum motivo, enquanto ainda estava com os braços amarrados, pensei na faixa do concurso de beleza que havia ganho e estava pendurada na parede do meu quarto — "Garota Água de Cheiro".
A imagem daquela faixa surgiu em minha mente e, nela, vi a possibilidade de uma vida feliz desintegrar por completo.
Eu tinha 17 anos.
Em seguida, escutei a voz de um homem: "Tirem ela daqui. Rápido!"
Outro apagão.
Dessa vez, acordei em outra sala.
Ao abrir os olhos, vi uma mulher sentada num banco abraçada a uma menina pálida que só usava calcinha e tremia muito.
Enquanto me observavam com um olhar de pena e espanto, me pus a gritar.
Estava envergonhada.
Sentia-me suja.
Desonrada.
Não queria ser como aquela menina.
Eu não estava ali por vontade própria e, num surto de raiva, gritei mais do que minha voz conseguia alcançar:
"Devolvam o meu bebê!
Devolvam o meu bebê!
Devolvam o meu bebê, agora!"
Senti como se uma vala enorme partisse o chão ao meio e engolisse minha alma, cobrindo-a com escuridão.
A mulher, irritada com meus gritos, puxou-me pelo braço. Com resquícios de anestesia, caí e fui arrastada no chão até um vaso sanitário que havia no meio daquele lugar.
Ao meu lado, uma janela enorme por onde o vento passava, como os antigos janelões de bibliotecas. Sentada naquele vaso, percebi estar nua e foi só o tempo de sentir o ar entrar que desmaiei novamente.
Quando acordei, me deparei com aquela mesma senhora na minha frente. Ela me vestia enquanto avisava alguém para chamar meu namorado, dizendo: "Ela não pode ficar aqui!" Eu sangrava muito.
Então fui levada ao elevador, onde perdi as forças e precisei ser carregada até o carro.
Ao acordar, já estava em frente a um pequeno prédio onde uma conhecida nos recebeu e fui deixada em um quarto para dormir.
Ao abrir os olhos, percebi que a pessoa que nos recebeu estava sentada na cama segurando minha mão. Ela perguntava se a escolha havia sido minha. Ao confirmar que não, ela levantou e o confrontou sem piedade.
"Como você pôde fazer isso com a menina? Se eu soubesse antes, teria impedido! Você está louco? Sim, você está louco!"
No dia seguinte, fui colocada deitada no banco de trás do carro e retornamos para casa. Achei que morreria na viagem, pois a dor era imensa. O carro balançava e parecia que estavam me cortando por dentro com facas. Foram muitas horas de dor.
Ao chegar em minha cidade, fui deixada em casa como se nada tivesse acontecido. Fui para o quarto e lá fiquei, da mesma forma como ficam as sacolas de lixo deixadas na lixeira.
Por muito tempo fui perseguida pelo ex-namorado e, onde quer que estivesse, ele sempre me encontrava. Abordagens eram constantes e eu acreditava que, em algum momento, ele me mataria.
Sem contar nada a ninguém, mantive um silêncio brutal e esmagador.
Se eu contasse, quem acreditaria?
Quem ficaria ao meu lado?
Como a sociedade da pequena cidade me trataria?
Como as amigas reagiriam?
O que meu pai faria?
O que meu irmão faria?
Ao romper o relacionamento, fui julgada por abandonar o namorado e fazê-lo sofrer, pois o viam implorando para que eu reatasse o namoro e não entendiam minha repulsa repentina por alguém tão querido — diziam que eu estava louca por deixar um cara tão bom. Que me tornaria "uma perdida na vida" sem ele. E, de fato, me perdi por um tempo. Não por não tê-lo mais em minha vida, mas por não encontrar mais razões para viver.
Algum tempo após o ocorrido, acabei voltando a cidade em que tudo aconteceu, pois iria representar minha cidade na final nacional do concurso de beleza que havia ganho antes de tudo.
Escondendo os sentimentos, sem qualquer apoio emocional ou financeiro e totalmente abalada, minha participação na final do concurso foi um desastre transmitido em rede nacional.
Eu não era mais a mesma.
No mesmo período, havia recebido um convite para me tornar agenciada de uma das maiores agências de modelos do mundo e segui rumo ao compromisso, impulsionada apenas pela possibilidade de nunca mais voltar para a pequena cidade onde havia nascido.
Chegando lá, percebi que havia sido seguida pelo ex-namorado que, quando me viu, implorou no meio da rua para que voltasse com ele para a pequena cidade. Ele dizia que tudo seria diferente, que me amava e não viveria sem mim.
Enquanto eu tentava manter a calma para seguir adiante com o compromisso na agência, inúmeros gatilhos de defesa foram acionados e a reunião foi outro desastre.
Eu estava hospedada no apartamento de um familiar e sabia que não podia causar nenhum tipo de problema, pois minha presença "incomodava".
No entanto, com a perseguição do ex, as consequências foram imediatas.
Naquele mesmo dia, fui expulsa pelo familiar dono do apartamento em que estava hospedada e tive que deixar o local imediatamente, sem permissão para levar mala ou qualquer outra coisa. Fui obrigada a sair apenas com a roupa do corpo. Passava da meia-noite.
Decepcionada pelo desfecho com a agência, sem dinheiro e sem rumo, longe de casa e acreditando merecer tudo aquilo, passei a madrugada vagando pelas ruas da grande cidade.
Não dá para colocar em palavras o tamanho da vergonha e do medo que senti naquela noite e, principalmente, o poder destrutivo de tantas violências somadas.
Caminhei até encontrar uma enorme escadaria onde permaneci encolhida enquanto me esquivava de viciados e moradores de rua.
Por sorte, nada aconteceu.
Antes de amanhecer, fui até o apartamento de uma pessoa que prontamente me acolheu.
Obviamente, isso teve um preço.
O caminho a seguir era apenas um: a autodestruição.
Como consequência, não retornei para casa, abandonei os estudos e as passarelas. Aceitei coisas e pessoas que não eram para mim e fugi de coisas e pessoas que me fariam feliz, pois acreditava que não as merecia. Assumi tudo o que acontecia como meu por merecimento e, depois de um tempo, retornei para minha cidade onde desafiei Deus. Com sangue nos olhos, odiei Deus, e me tornei o pior pesadelo que poderia me tornar.
Minha rebeldia só parou quando, três anos mais tarde, engravidei novamente.
Muitos anos depois, após ter saído de minha cidade natal, ter permanecido em um casamento abusivo por dez anos e ter tido outros dois filhos, escutei de um familiar a seguinte frase: "Você devia ter casado com fulano."
Mais uma vez, meu silêncio encobriu tudo, fortalecendo o ciclo interminável da violência. Um silêncio nunca quebrado. Até agora.
Mais de vinte anos depois, em 2018, para minha suspresa, recebi um pedido de perdão espontâneo por parte do familiar dono do apartamento, do qual fui expulsa.
Com o pedido, veio a explicação de que, na época em que ocorreu a expulsão, ela vivia em um relacionamento abusivo e, por esse motivo, teria me jogado na rua. O homem que estava com ela não me queria no apartamento e, para não perde-lo, ela me expulsou.
Novamente, fui questionada sobre ter permanecido gentil e educada, sobre jamais ter revidado e sobre ainda conseguir abraçá-la, mesmo depois de tudo.
Na época do pedido, eu não tinha respostas, apenas a tranquilizei, dizendo que não precisava se preocupar.
Quando o pedido chegou, eu ainda não compreendia a dimensão da violência que havia sofrido e, mesmo que essa pessoa estivesse diante de mim descrevendo o que me fez, eu não achava que ela precisasse se desculpar. Afinal, tudo o que me faziam era rapidamente perdoado para que eu não precisasse lidar com a dor. Dessa forma, conseguia seguir vivendo normalmente no mundo ilusório de bondade que eu mesma havia criado. Era mais fácil ignorar e dizer às pessoas "tudo bem, não foi nada" e encerrar o assunto, do que olhar para dentro e encarar tamanha destruição.
Nada mudará o que aconteceu comigo em decorrência de tudo o que passei, mas sou grata por essa pessoa ter reconhecido seu erro. Não carrego ódio. Não carrego nada.
Sigo meu caminho permanentemente afastada.
O ex-namorado nunca se pronunciou. Jamais disse uma palavra sobre o que aconteceu. Após sair de minha cidade, nunca mais o vi. Espero que algum dia, de alguma forma, ele entenda a dimensão do estrago que causou.
Abuso 4
Físico, Psicológico, Moral e Racial
Nascida em uma cidade pequena onde o machismo predomina e as questões de racismo, preconceito e discriminação são, em sua maioria, silenciadas, tive sorte de me tornar o oposto de tudo o que me cercava.
Aos dezenove anos, fui jogada ao chão com a força de um tapa, arrastada e estrangulada por beijar uma pessoa negra.
Pela segunda vez em vida, meus olhos viram aquela mesma pessoa estrangular alguém.
Mas dessa vez, a estrangulada era eu.
As agressões verbais e físicas que sofri naquele dia "falavam alto" sobre quem agredia e sobre o machismo impregnado nos homens.
Não era sobre mim.
Duas pessoas presenciaram a agressão, ambas mulheres. Nenhuma delas reagiu e nunca disseram nada sobre o que aconteceu. Nunca houve ou haverá qualquer pedido de desculpas para esse episódio. A pessoa que cometeu as agressões, não está mais entre nós.
Sigo meu caminho em paz.
...
Sobre o Perdão e o Silêncio
Nunca esperei por pedidos de perdão. Sequer imaginei que algum dia eles viriam. Mas sempre perdoei as pessoas que erraram comigo.
Em determinado momento da vida, pensei que estivesse louca, pois, quando questionava, ninguém tinha coragem de assumir o que fazia.
A resposta era sempre a mesma: "Você exagera as coisas!" ou "Você tá louca!" — E logo desconversavam. Agiam como se não tivessem feito nada e ainda falavam sobre mim a outras pessoas. Minavam tudo ao meu redor para que, caso eu falasse, fosse desacreditada. Em várias ocasiões, fizeram isso enquanto ainda estavam na minha frente. Após cometer uma agressão, imediatamente pegavam o telefone e contavam a versão deles para outras pessoas e todos ficavam contra mim.
O comportamento daquelas pessoas dizia mais sobre elas do que palavras poderiam expressar."Em nossas atitudes, vaza a nossa essência." Eu sempre soube disso. Por isso, sempre fiquei quieta e aceitei tudo o que achavam ou diziam, sem revidar.
Aprendi a me afastar em silêncio.
Como poderia mudar o pensamento de pessoas que já estavam decididas sobre o que era a verdade? Nada que eu dissesse ou fizesse faria diferença.
Quando recebi os pedidos de perdão, pude tirar um peso enorme das costas. Um peso que carreguei durante toda a vida, sem saber o que carregava.
Cada pedido foi uma confirmação de que eu não era culpada pelas coisas que me aconteceram. A validação que eu precisava para entender que tudo o que haviam feito era, de fato, errado. E mesmo que essas confirmações tenham acontecido trinta anos mais tarde, foram um grande alívio.
Contar a minha história é tão necessário quanto foi receber os pedidos de perdão.
É a tal “cura pela fala”.
Uma cura que só chega quando o silêncio é rompido.
E se hoje quebro esse silêncio que quase me custou a vida, é porque acredito que, contando a minha história, posso, de alguma forma, ajudar pessoas que passam por situações similares.
O perdão liberta.
Mas somente a quebra do silêncio cura.
Abusos e Consequências
Após a morte de minha mãe, vivi situações absurdas.
Humilhação atrás de humilhação.
Falta de amor.
Descaso.
Negligência.
Passei por várias outras situações e presenciei cenas que ainda hoje tento entender. Dentro e fora da família.
Por exemplo:
Aos quinze anos, após sofrer queimaduras de sol depois de uma tarde na piscina, o tio de uma amiga, médico renomado na cidade, entrou no quarto em que eu estava e pediu para que eu tirasse a toalha para que ele pudesse passar creme hidratante em meu corpo.
Paralisada de medo e impotente, usando somente calcinha, fiquei em pé na frente daquele homem, enquanto as amigas espiavam da porta. A situação toda foi muito desconfortável, humilhante e aterrorizante.
Em minha cabeça, se me opusesse, seria chamada de louca e talvez até ingrata, já que estava na casa dele. Afinal, estava acostumada com situações onde o desrespeito era normalizado. O que me dava o direito de pensar que aquilo estava errado?
Mesmo assim, enquanto ele passava suas mãos em meu corpo, eu pensava: Por que ele veio até o quarto para fazer isso se, na casa, há várias meninas que poderiam fazer o mesmo por mim? Não estava certo. Eu sentia que não estava certo. Mas eu não tinha estrutura para reagir. Pois o que parecia errado aos meus olhos, batia de frente com o que as pessoas diziam quando eu as questionava em situações parecidas: "Você exagera!" "Você é louca!" Você sempre foi louca!"
Ou seja, eu fui condicionada desde muito pequena a tolerar e normalizar situações assim. O medo de estar errada e de ser chamada de louca era o que me paralisava.
Como quando um familiar adulto colocava minha mão dentro de sua bermuda para tocar o seu órgão genital, dizendo: "Olha o passarinho!"
Isso aconteceu a vida toda, diante de todos. Mas como sempre aconteceu em tom de "brincadeira", as pessoas achavam graça. Todos riam. E, por isso, nunca houve qualquer intenção por parte desse homem de esconder o que fazia. Afinal, era uma brincadeira. Sempre foi uma brincadeira e ainda hoje é.
Ninguém leva a sério.
Compreender que esse tipo de situação pode impactar e causar danos irreversíveis na vida de uma criança não deveria ser algo de difícil compreensão.
Mas, é.
E, pior, falar sobre o assunto é visto como uma afronta familiar.
As pessoas podem dizer: "ele sempre fez isso comigo também, mas era uma "brincadeira" e nunca me causou problemas."
O que essas pessoas não percebem...
é que não é sobre elas.
Tendo esse nível de normalização dentro da própria família, a mensagem que me foi passada desde a infância, foi: "mesmo que você sinta que uma determinada situação lhe agrida profunda e violentamente, não expresse o seu pensamento."
Em outras palavras, fui moldada a normalizar o que não é normal.
Durante a adolescência, houve uma tentativa de relação sexual forçada com luta corporal, onde fiquei bastante machucada. O agressor era um menino que eu gostava e, felizmente, consegui escapar.
Horas depois, conhecidos passaram de carro pelo local e me levaram para casa. Mesmo percebendo que algo havia acontecido porque eu estava tremendo e com os braços e pernas arranhados, todos permaneceram em silêncio.
Sentindo-me envergonhada e acreditando que era responsável por tudo o que me acontecia, fiz o mesmo. Mantive o silêncio.
Em casa, era uma luta diária.
Com um pai desentruturado e ausente, gritos e xingamentos vinham sempre da mesma pessoa. Segundo ela, já que minha mãe estava morta, a casa era dela e nós éramos uns "merdas."
A história dessa pessoa não é diferente. Em sua infância, sofreu inúmeros abusos. E o que ela fazia, nada mais era, do que o reflexo de tudo o que estava impregnado em sua pele.
Diariamente, o que meus olhos viam parecia errado, mas era constantemente chamada de louca quando questionava determinadas situações.
Os maus-tratos estavam por toda parte.
Dentro e fora de casa.
E se estendiam até os animais que tínhamos.
Então, certo dia, uma vizinha apareceu em nosso portão, gritando: "Se continuarem maltratando o cachorro, chamarei a polícia!"
Enquanto ela gritava, do meu quarto eu pensava: "Será que ela faria o mesmo por mim, se soubesse o que me acontecia? Será que me defenderia com o mesmo afinco?"
Aquilo acendeu uma faísca em meu peito e me fez acreditar que eu estava certa quanto ao comportamento execrável de todos e decidi que nada iria fazer com que me tornasse como as pessoas que me cercavam.
Ainda assim, inconscientemente, acabei reproduzindo comportamentos e abusos que sofri e isso demonstra o quão destrutivo e real é o "Ciclo da Violência". Uma violência que passa de geração para geração e permanece alojada em nossas entranhas. Normalizada por uma estrutura patriarcal que a oculta, perpetua e silencia.
...
Situações como as que aconteceram comigo são mais comuns do que se pode imaginar. A maioria dos abusos cometidos contra crianças e adolescentes acontece em casa ou são cometidos por pessoas próximas.
Nesse cenário, é bastante comum uma criança ou adolescente ser desacreditada, ou silenciada. O problema é gravíssimo e os impactos de abusos físicos, sexuais e psicológicos na infância são gigantes.
Quando a violência é praticada por algum parente ou conhecido, a visão de segurança, confiança e proteção são automaticamente destruídas, acarretando sérios problemas que podem surgir ao longo da vida.
Inclusive, a reprodução dos abusos.
No meu caso, tive vários problemas.
Por falta de informação, suporte, vergonha, medos e bloqueios, demorei quase quarenta anos para compreender o que se passou comigo.
Por não ter a quem recorrer na infância, aprendi a silenciar e carreguei esse silêncio por toda a vida.
Aos dez anos, após a morte de minha mãe, tive as primeiras crises de paralisia do sono — episódios violentos que se estenderam por trinta anos sem que eu soubesse que eram sinais do meu próprio corpo indicando a gravidade dos traumas.
Nesses episódios, alucinações vívidas onde conseguia descrever coisas que aconteciam em outros locais enquanto eu estava dormindo, medo intenso, aprisionamento do corpo, barulhos assustadores e presenças malignas.
Por conta das crises de paralisia do sono, desenvolvi terror noturno e insônia, que me levavam a só conseguir dormir em lugares claros ou abertos, então dormia no telhado ou terraço da casa em que morava.
A única forma de conseguir dormir em meu quarto, era posicionando uma cômoda pesada em frente a porta para que ninguém conseguisse abri-la. Mas, fazendo isso, o medo de estar trancada me paralisava. Em muitas noites, esperava amanhecer sentada na janela, pois não conseguia ficar dentro e nem fora do quarto. A janela era o único lugar seguro.
Desmaios e medo do escuro faziam parte do meu dia a dia e, a perda do controle da bexiga, o famoso "xixi na cama" que começou por volta dos oito anos, se estendeu até os dezesseis anos.
Ainda hoje, aos 48, o pânico de escuro e de portas fechadas permanece.
O perfeccionismo era outro sintoma que indicava a minha condição. Desenvolvi TOC (Transtorno obsessivo-compulsivo) e um sério problema com cores.
Todos os dias, por onde passava, arrumava tapetes, quadros, cortinas e pequenos objetos de decoração para que ficassem perfeitamente alinhados. Tudo precisava combinar, tom sobre tom. Já os tapetes tinham que seguir as linhas existentes no piso. Quando arrumava um objeto, o resto precisava ser arrumado.
De tempos em tempos, detalhes existentes em meu comportamento chamavam a atenção de alguém e, quando questionada, nunca sabia como responder. Essas "raras" situações em que alguém me notou, ficaram registradas em minha memória.
Na primeira vez, ainda na adolescência, estava na sala de espera do dentista e não aguentei ver os quadros tortos pendurados na parede. Comecei pelos quadros e, enquanto esperava, arrumei a sala toda. Ao ser atendida, fui surpreendida pelo dentista que disse ter visto o que fiz, e completou: "Também sou assim, tive uma infância difícil, mas gradualmente estou superando o perfeccionismo." Na época, eu nem imaginava que meu comportamento tivesse ligação com tudo o que acontecia e tão pouco sabia sobre os traumas que carregava. Lembro-me apenas de ficar envergonhada por ser daquele jeito. Sentia como se eu tivesse algum defeito.
Na mesma época, um professor da escola em que estudava disse saber que algo estava acontecendo e que não desistiria de mim. Disse, ainda, que eu não estava sozinha e podia contar com ele, caso precisasse. Orientou-me a pedir ajuda e explicou que não havia vergonha nisso. Por meses, esse professor me atendeu diariamente com aulas particulares gratuitas na escola. Assustada com tamanha atenção, dedicação e respeito, desisti das aulas e reprovei de ano. Essa foi a maneira que encontrei para me defender de algo bom, antes que pudesse me causar sofrimento.
Esse comportamento "defensivo antecipado" se estendeu à vida adulta e permanece até hoje.
Na vida adulta, mostrei meu trabalho a um artista plástico e sua primeira reação foi dizer que precisava de tempo para absorver o que via. Ele parecia chocado com tamanha disparidade entre a obra e o criador. Como se questionasse a versão de mim como eu a apresentava ao mundo.
Tal qual, como quem lê a alma, ele me viu despida em minhas peças.
Nunca esquecerei o seu olhar naquele dia.
Enquanto me olhava com compaixão e certa incredulidade, seus olhos atônitos gritavam dizendo: então essa é você!
Nas peças em cerâmica, corpos sem espinha dorsal, com olhos cobertos e bocas costuradas, denunciavam o que de mais profundo habitava em mim.
Para encobrir tantos buracos de caráter emocional, os quais eu não sabia como resolver, o perfeccionismo sutil da infância tomou outra proporção na vida adulta.
Tornei-me perfeccionista em tudo o que podia controlar.
Meu comportamento como pessoa tornou-se exemplar.
Fui o máximo possível de mim mesma.
A mãe e amiga que faz tudo.
Uma mulher sempre disposta e sorridente, querida e atenciosa com todos. Sempre cercada de amigos.
Uma mulher que não sabia dizer não e não parava para se cuidar, mas que sempre cuidava de todos à sua volta.
Três filhos.
Três empregos simultâneos.
Inúmeros trabalhos voluntários, passeios, viagens, festas e esportes radicais.
Mãe, mergulhadora, trilheira, ativista, professora, web designer, ceramista, decoradora, tradutora, pintora, produtora audiovisual, desenvolvedora de projetos.
Tudo ao mesmo tempo!
Tirei a roupa do próprio corpo para ajudar outras pessoas enquanto eu mesma não pedia ajuda a ninguém. Filhos, amigos, colegas, causas animais e pessoas em situação de rua, todos tinham a minha máxima atenção e dedicação.
Fui até a exaustão.
Estava condenada a viver com a "síndrome da boazinha", condição onde o medo inconsciente de desagradar me levava a priorizar os outros a qualquer custo. Mesmo que isso custasse minha própria vida.
No trabalho, agilidade e excelência.
Em casa, tudo organizado e limpo.
Me desdobrava em mil para atender expectativas invisíveis que jamais seriam atingidas.
Apesar de tantas bandeiras vermelhas indicando que algo estava errado, eu não compreendia os motivos que me levavam a ser daquele jeito. Sentia apenas que não era uma escolha, mas uma obrigação.
Eu tinha a obrigação de ser a melhor versão que pudesse ser, sem nunca pedir ou aceitar nada de ninguém.
A obrigação de fazer tudo por todos.
E para conseguir ser tudo isso, sufoquei em silêncio por anos.
Meu caminho é contornado por um mar de escolhas movidas pela baixa autoestima e pelas lembranças guardadas no inconsciente. Vozes de um passado que fazia com que eu me diminuísse sem perceber o que me acontecia. Infinitas decisões baseadas em coisas que eu nem sequer sabia que estavam lá.
Fui destroçada em vida.
Como é recebida a mulher que sofre abusos em nossa sociedade
Na vida adulta, assim como na infância e adolescência, vi minha dor ser diminuída. "Você não é a única! A vida é difícil para todo mundo!" "Cala a boca e segue!"
Até mesmo a polícia, que deveria estar do meu lado, pouco esteve.
Com uma criança de cinco anos nos braços e dentro da Delegacia de Proteção à Mulher, fui surpreendida pelo homem responsável por nosso atendimento, com a seguinte frase: "O que ela fez para ele agir assim?" Como se a criança de cinco anos tivesse culpa.
Em seguida, a responsável por realizar o exame de corpo delito, ao examinar os hematomas na criança, disse as seguintes palavras: "Isso não é nada. Há crianças que chegam aqui porque o pai bateu com um tijolo!"
Nos inúmeros boletins de ocorrência que registrei na Delegacia de Proteção à Mulher ao longo dos anos, os atendentes, sempre homens, diziam: "O que a senhora fez para ele agir assim?"
E quando precisei de instruções sobre medida protetiva, fui desencorajada por uma policial na Delegacia de Proteção à Mulher, que disse: "Fique ciente de que uma medida protetiva é apenas um papel. Nós não estaremos lá para lhe proteger quando ele decidir violar a medida. Não temos como prever o que ele fará ou quando fará." E completou: "É nessa hora que eles matam. Pense bem!"
Impotente, desamparada e com medo, deixei a delegacia sem solicitar a medida.
Em outra ocasião, ao ser atendida por um policial, homem, na Delegacia de Proteçao à Mulher, recebi o seguinte conselho: "A senhora deveria ir para casa e tentar se entender com ele!"
Quando liguei para o 190 solicitando intervenção imediata em uma situação de agressão física que aconteceu no meio da rua, o questionamento infindável a respeito do local da ocorrência, nome da rua, ponto de referência, nome do agressor e o que ele era, onde morava, o que exatamente estava acontecendo e o que eu estava fazendo na rua se estendeu por tanto tempo que a ocorrência acabou e não fui socorrida.
Depois daquilo, nunca mais liguei para solicitar intervenção policial.
Em outra situação, quando fui agredida na saída da escola particular de meus filhos, ainda no chão, pedi ajuda aos donos da escola que estavam em pé no portão, dizendo: "façam alguma coisa!" A resposta veio em forma de indiferença: "Só podemos interferir do portão para dentro!" Sequer me ajudaram a levantar.
Um Juiz, certa vez disse: "Ela tem três filhos pequenos, mas, é nova, bonita e pode trabalhar."
Isso aconteceu quando solicitei a gratuidade em um pedido, pois não tinha recursos financeiros suficientes para bancar as custas de um processo, já que havia saído de um casamento de dez anos apenas com as roupas do corpo, trabalhava em três empregos, morava de aluguel e sustentava sozinha os três filhos que moravam comigo e frequentavam escolas particulares.
A outra parte, que acumulava anos de dívida de pensão alimentícia e denúncias de violência doméstica, tinha empresas fora do Brasil e ao seu lado uma equipe inteira de advogados.
Mesmo assim, me foi negada a gratuidade. Pois, segundo o juiz: "Eu era nova, bonita e podia trabalhar".
Em agosto de 2019, após quase 10 anos de um processo exaustivo, o genitor de meus filhos já com todo o patrimônio distribuído em contas internacionais e em nome de terceiros, deixou o Brasil.
Com uma dívida que beira os quatrocentos mil reais (valor de pensões em atraso sem qualquer tipo de indenização por danos), nunca mais tivemos notícias. Enquanto isso, seguem rastreáveis na internet algumas das transações milionárias daquele que, para a justiça, sempre afirmou não ter nada.
Foram mais dez anos de tortura psicológica, moral, patrimonial, processual, manipulação dos filhos e violência física que, se tivessem tido o devido olhar da justiça, teriam sido evitados. Mas não foi o que aconteceu.
Essas e outras coisas fizeram com que eu questionasse a minha própria sanidade. Aos olhos dos outros, tudo o que nos acontecia parecia ser pouco. Sempre foi pouco.
Ninguém dava a mínima!
Esse abismo sistêmico e cultural, somado ao machismo e conformismo que permeiam as estruturas da sociedade, deforma a nossa capacidade de discernir entre o certo e o errado. Nos força a normalizar algo que não é normal. A entender o sofrimento como algo provocado por nós mesmos. A nos envergonharmos por atitudes alheias. A aceitar um sistema que fragiliza, desampara, desqualifica, desumaniza, culpa, silencia e mata vítimas enquanto protege agressores.
O despreparo no tratamento às vítimas de violência é absoluto.
Está presente em todas as camadas da sociedade.
Em todos os órgãos.
Em todas as esferas.
Policiais.
Juízes.
Peritos.
Psicólogos.
Advogados.
Promotores.
Pessoas comuns.
Todos falham quando o assunto é violência doméstica.
Até mesmo os médicos que deveriam nos socorrer, falham.
Tamanha incompetência se deve, única e exclusivamente, à falta de interesse. E essa “falta de interesse” é um problema grave e cultural atrelado ao sistema patriarcal em que vivemos.
O limite.
Em 2020, trinta e seis anos após os primeiros abusos, finalmente, meu espírito sucumbiu a tamanha destruição. Todas as minhas defesas ruíram, em efeito dominó, uma a uma.
Foram trinta e seis anos de um suportar e silenciar sem fim até que fingir estar bem e seguir em frente já não era possível. Cheguei no ponto onde as pessoas morrem e nesse ponto colapsei.
Meu corpo simplesmente desligou.
Do colapso até aqui, foram quase seis anos de uma desconstrução total de minha existência e de uma luta feroz pela sobrevivência.
Não foi fácil chegar onde estou agora.
Fiquei impossibilitada de trabalhar, de me mover, perdi bens materiais, a esperança e a saúde. Vi minha casa desmoronar enquanto era esvaziada de mim mesma e, por pouco, não cometi suicídio.
Milagrosamente, após tanta dor, a escuridão trouxe à tona outra mulher.
Uma mulher livre, sem medo e sem vergonha, que não aceita mais o silêncio como parte de sua vida. Uma mulher lúcida, forte e disposta a contar a sua história para ajudar outras mulheres. Uma mulher que usará a própria voz para apontar as falhas grotescas de uma sociedade escandalosamente omissa e impune.
Hoje carrego marcas profundas e convivo com sérias limitações, mas nem por isso minha alma se tornou pequena.
O que aprendi com tudo isso?
Aprendi que violência psicológica é a forma mais cruel de violência que existe. Ela atinge o cerne da nossa existência, abalando profundamente nossa visão de mundo. Ela desprotege e impacta violentamente nossa percepção sobre nós mesmos. É uma forma vil, sorrateira e perversa de matar alguém.
A violência psicológica está presente em todas as formas de abuso — seja sexual, físico, moral, patrimonial, etc. Ela é o núcleo de todas as violências e se alastra por onde passa causando danos permanentes a sociedade. O dano não se resume ao indivíduo. E, por isso, a violência psicológica é o tipo de crime que precisa e deve ser tratado como "hediondo", pois impacta e desestabiliza toda a estrutura em que vivemos.
Quando acontece na infância, abre portas para que inúmeras outras violências aconteçam ao longo da vida. O mais aterrorizante é que a violência psicológica é geralmente cometida por pessoas próximas, aquelas que mantêm uma imagem de bondade e confiabilidade.
No entanto, são essas pessoas que cometem os abusos.
A ideia principal desses abusadores é sempre a mesma: anular a vítima. Diminuí-la e confundi-la para que ela não tenha forças para reagir. Desconstruir sua imagem perante os outros, para que, quando ela finalmente fale, ninguém acredite em sua versão. Além de desacreditada, a vítima é manipulada, isolada, enfraquecida e trucidada.
Por isso, torna-se tão difícil para quem sofre abusos se desvencilhar de uma situação de violência. Leva tempo, e as vítimas precisam de uma força enorme para encontrar a coragem de falar sobre o que lhes acontece.
E quando finalmente conseguem deixar a voz sair, são recebidas pela ignorância de uma sociedade sem escrúpulos e sem parâmetros.
O mais comum é ouvir: "Deixa de frescura. Você não é a única!" Ou ainda: "O que você fez para ele agir assim?" "Volta pra casa, foi só um momento de raiva, ele não é sempre assim." "Você está exagerando!"
Alguns ainda tem a capacidade de dizer: "Ah, mas nem todos são iguais! Cuidado com o que fala, tá parecendo uma mulher rancorosa!"
Ou seja, somos violentadas e abandonadas por todos, o tempo todo.
Perguntar a uma vítima "o que ela fez para que o agressor agisse assim" demonstra o quanto estamos submersos no machismo que contamina tudo. A "culpa" da violência é, mesmo que de forma inconsciente, sempre atribuída à mulher.
A verdade é que as pessoas estão acostumadas a diminuir a dor do outro para não ter que lidar com a situação. Tornam-se coniventes, cúmplices da violência por opção. Se escondem descaradamente atrás de uma crença estúpida, que diz: "Em briga de marido e mulher, não se mete a colher!". E ainda dizem: "Não posso falar nada porque o cara nunca fez nada para mim" ou "O cara é meu amigo, não posso falar porque vai ficar chato."
Ou seja, aquilo que fere o outro, pouco importa. Ninguém quer se envolver, e é por isso que o ciclo da violência se perpetua.
"É desta massa que nós somos feitos,
metade de indiferença e metade de ruindade."
Disse José Saramago, em Ensaio Sobre A Cegueira.
Se a violência existe, é culpa de todos!
Se vítimas de violência cometem suicídio, a culpa é de todos!
Sim, de todos!
Somos todos responsáveis pelo que acontece em nossa sociedade e a desconstrução dessa estrutura abominável e doentia que rege nossas vidas é urgente.
Nunca foi tão necessário livrar-nos das vendas que nos cegam quanto é agora. Quanto mais falarmos sobre o assunto, mais difícil será de ignorá-lo.
Estamos embrulhados em um emaranhado horrendo de permissividade, machismo e hipocrisia.
Nossa sociedade é uma sociedade adoecida. Comandada por um patriarcado decrépito e sórdido, um sistema desenhado para nutrir e expandir o horror. Um patriarcado que não apenas mantém o status quo, mas alimenta ativamente a violência e as injustiças.
Por isso, há tanta relutância em quebrar o silêncio quando a questão é violência contra as mulheres.
As mulheres estão cientes do que irão enfrentar se tiverem coragem de ir contra o sistema patriarcal que engole a todos. Estão tão cientes disso que muitas desistem da luta antes mesmo de começá-la. Elas sabem que, na prática, o tal "você não está sozinha" é uma falácia, um consolo vazio.
Não funciona!
E dentro dessa bolha coletiva de loucura, quem mais condena são as próprias mulheres.
Sim, mulheres!
Mulheres machistas e omissas, que, em sua ignorância, sustentam e disseminam a misoginia que nos afoga.
Os homens, por sua vez, permanecem covardemente calados, escorados em um silêncio infantil e atroz. Apoiam-se em uma estrutura medieval, débil e misógina, que os coloca como superiores e os faz acreditar, veementemente, que o são.
"O machismo faz com que até o mais medíocre dos homens se sinta um semideus diante de uma mulher."
Disse Simone de Beauvoir, em sua obra-prima de 1949,
O Segundo Sexo (Le Deuxième Sexe).
A violência que nos cerca é fruto da nossa própria ignorância. É fruto da nossa falta de empatia, de tempo, de respeito e de amor. É o abismo construído por nós mesmos — cotidianamente — um abismo que que se mantém na omissão.
A violência nada mais é do que o reflexo de todos os nossos erros.
A MINHA ALMA FALA é um registro para que o futuro veja o quanto sofremos, o quanto lutamos e para que os erros de hoje não se repitam.
Ao contrário do que muitos podem estar pensando, a MAF não se posiciona "contra os homens". Pensar dessa forma é um reflexo do machismo, fruto de uma cultura que ainda precisa ser desconstruída.
Por isso, a MAF faz um convite aos homens para que se juntem a nós na luta pelo fim de comportamentos que não condizem com uma sociedade evoluída e justa. É responsabilidade de todos combater a violência contra as mulheres, e os homens são parte fundamental nesse processo.
Entendo que não posso mudar o mundo, mas também sei que se eu plantar uma semente, em algum lugar, algum dia, alguém se beneficiará.
Hoje, eu me levanto por todas as mulheres que precisam ser ouvidas. Espero que minha história e o que fiz com ela sirva de exemplo para outras pessoas. Que leve luz, entendimento e força por onde passar.
É preciso sabedoria para aceitar as mudanças. Não se apegar ao ruim e tampouco deixar pra lá.
Enquanto resgato e reverencio a história das mulheres que me antecederam, sigo me curando e abrindo espaço para que outras façam o mesmo.
Ressignificar é necessário.
Transbordar, também.
Como disse William Faulkner:
"Se uma história está em você, ela tem que sair."
Desejo que todos se curem das dores silenciadas. Que se libertem das coisas que machucam e deixem ir as lembranças que trazem sofrimento. Que encontrem a coragem necessária para encarar os problemas sem desistir da luta.
Por fim, desejo que despertem e encontrem paz.
Aline Teixeira - Fundadora da MINHA ALMA FALA e do PALCO MAF para Mulheres Vítimas de Abusos.
@minha_alma_fala
Meu corpo, essa carcaça que me envolve, hoje não é mais o mesmo. Porém, meus valores e crenças seguem intactos. E é assim, carregada por esse novo envólucro, que seguirei meu caminho, lúcida, rumo ao desconhecido.
"Antes, minha vida tinha cores;
hoje, tem um propósito."
Meu nome é Aline
e a Minha Alma Fala.

O que é violência doméstica e familiar contra a mulher?
De acordo com o art. 5º da Lei Maria da Penha, violência doméstica e familiar contra a mulher é "qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial".
Lei
Estão previstos cinco tipos de violência doméstica e familiar contra a mulher na Lei Maria da Penha:
física, psicológica, moral, sexual e patrimonial − Capítulo II, art. 7º, incisos I, II, III, IV e V.
Essas formas de agressão são complexas, perversas, não ocorrem isoladas umas das outras e têm graves consequências para a mulher. Qualquer uma delas constitui ato de violação dos direitos humanos e deve ser denunciada.
Não justifique
nem banalize
a violência.
Cada vida importa,
e cada mulher, cada criança, cada adolescente
deve ser protegido de todas as formas de violência.
Toda pessoa que testemunhar, souber ou suspeitar
de violências contra mulheres, crianças e adolescentes
deve denunciar.
Não se cale.
Denuncie
Ligue 180
